Saúde

A Alma Imoral

Existem certezas anteriores à razão”.

Fui assistir a uma peça, “Alma Imoral”, por indicação de duas pacientes: confesso que desconfiada, por saber que a peça era um monólogo de uma mulher nua.

Para minha surpresa, a nudez foi um recurso facilitador para eu entrar em contato com o teor da peça.

Não há nudez na natureza. Deus só reconhece a nudez do homem, na vergonha que o homem sente da própria nudez”.

Talvez, por isso, me comoveu tanto, ao lidar com tamanha transparência e honestidade, sem vestimentas e sem máscaras, era como se todos os expectadores daquela sala se igualassem. Deixei de enfocar o corpo e a moral, para visualizar a alma. Eu vi a sua alma!

E para a Alma, o Rabino Nilton Bonder, atribui uma característica genuína, a Imoralidade. A alma imoral tem como natureza a transgressão, a desobediência, a traição.

Penso: a alma, diferentemente do corpo, não possui forma, padrão e limite. Atualmente, nem sabemos onde localizá-la em nosso corpo. Como ela seria moldada e conduzida por uma moral?

Lei é o privilégio concedido a uma determinada compreensão”.  E por isso, “a desobediência da lei é muitas vezes a opção mais próxima da lei que a própria lei”.

De certa forma, a peça direciona um questionamento das leis estabelecidas e da tradição, e a nossa postura de seguir estas leis e tradições sem uma reflexão, sem a consciência de que realmente queremos isso ou aquilo, apenas como comportamento automático.

 “Não há tradição sem traição”.

Se assim não fosse, como Niskier conclui perfeitamente, a lei não seria uma lei, e sim uma arbitrariedade.

Com alguns exemplos do Antigo Testamento, Niskier demonstra como a traição e a desobediência da lei faz com que a tradição evolua. E que o texto bíblico não julga e nem condena.

Por um lado, penso nas traições que eu e meus pacientes cometemos: até mesmo a fidelidade a alguém ou a algo pode caracterizar-se como traição da nossa alma, das nossas reais vontades e dos desejos mais pessoais.

Por outro lado, penso no julgamento que realizamos aos outros. Julgar nada mais é que atribuir a sua verdade a verdade do outro, sem saber do contexto, da intenção e dos recursos que o outro tinha para ter tido tal atitude. E se pensarmos que cada indivíduo é único e possui a sua verdade (seus valores, sua história de vida, sua educação), sempre que julgamos estamos errados.

Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade”.

O apego é uma forma de trair a alma. Entendendo o apego como uma crença ilusória de que você só será feliz, realizado, completo se estiver com determinada pessoa, coisa ou situação; naturalmente traz a pessoa a uma posição de dependência. Por outro lado, a alma que por ser transgressora, tem em si a idéia de liberdade.

Nenhum lugar pode ser amplo pra sempre,” bem como o ventre materno. “Saber entregar-se às contrações de um lugar estreito para um lugar amplo é um processo assustador e avassalador”.

Aquele que não faz uso de todo seu potencial na vida, de alguma maneira diminui o potencial de todos os humanos”.

Este é o caminho para o crescimento!

Esta peça é riquíssima! Conheço algumas pessoas que já assistiram mais de cinco vezes e afirmam que a cada vez a peça “tocou” de um jeito diferente.

Neste texto mesmo, não abordei outros temas que também me marcaram, mas acredito que é válido até para que você tenha maior curiosidade para assistir e comentar aqui no blog sua percepção.

Marcela Jacob

Monólogo: Clarice Niskier

Baseado no Livro: A Alma Imoral de Nilton Bonder

Recomendo: http://www.almaimoral.com/

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Comentários em: "A Alma Imoral" (3)

  1. Vitor disse:

    Realmente “A Alma Imoral” é tocante, não somente pela paixão que a atriz transmite pela peça, mas também pelo quanto ela mexe com a nossa alma, nosso íntimo, no sentido de Verdades que atribuímos para nossas vidas, e principalmente pelas quebras de paradigmas que vão acontecendo ao longo de todo o monólogo.
    Recomendo a todos aqueles que gostariam de experimentar e se identificar com a sua própria Alma.

    Parabéns pelo Blog.

  2. Maria Fernanda Jacob disse:

    A Marcela me recomendou tanto que fui, nesta sexta-feira, assistir a peça Alma Imoral.
    Realmente Fantástica!! O monólogo me mostrou um outro caminho de trabalhar a alma, comparado com o que faço em consultório, retirar nossas couraças físicas, para despertar nossa alma. Saí com muita vontade de voltar!

  3. Miriam disse:

    Essa peça é incrível e já recomendei a muitos pacientes! Sem dúvida nenhuma essa peça trata da liberação da alma. E suas complicações rsrs
    Parabéns pelos comentários!

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