Saúde

carla1  Era um quarto de enfermaria da neurologia adulto em um hospital grande de São Paulo. Ao lado de um corredor da área externa, onde pela janela refletia um pouco de claridade do sol.
Ela não sabia ao certo o que estava fazendo ali naquele quarto, tudo era tão confuso, a situação, sem família, as pessoas dali. Ela sofria, gritava de desespero e chorava todos os dias. Paciente com problema neurológico grave, pouco controle motor e psicológico.   Mas era apenas uma linda moça de lá seus trinta e poucos anos. Eu, com um pouco de receio de atendê-la pela primeira vez, com medo de não transmitir calma e sim desespero, entro no quarto e me deparo com um sorriso. Aquilo já mexeu com meu ser. Chego bem perto, vejo que está com os braços atados na maca, para que não se machuque. Desamarro sem medo, faço alguns exercícios e converso, dizendo o quanto ela é linda. Naquele momento aproveito para fazer uma oração, aproveitando que eu estava ali com ela, sozinha, isolada. Vejo o quanto ela olha pela janela, senti que por dentro ela gritava, quero sair daqui. Eu digo, vamos passear? E através do seu olhar consigo entender a resposta, por favor, me leve para ver o sol. Com ajuda de uma amiga fisioterapeuta, a coloco na cadeira de rodas, sua ansiedade era grande que seu corpo mal se controlava de emoção. Chego no corredor da área externa e percebo que o sentimento de esperança aumenta no olhar da paciente. E quando ela mira para direção dos raios do sol batendo no chão, a reação não poderia ser outra: um lindo sorriso. A coloco sob o sol, recebendo aquela energia, quentura, aconchego de estar mais perto da vida. Raridade do dia a dia daquele ser. Ficamos por um tempo ali. Ela quase adormecendo naquele cantinho de paz, deu a hora de acabar o atendimento: Vamos? E de repente um sentimento cresce, a agitação aparece, o choro vem e um NÃO soa desesperado, junto com um medo de voltar para o quarto escuro. Eu digo, tudo bem, vamos ficar mais, hoje Deus está dedicando o sol a você. Assim o sorriso dela renasce. Enquanto isso, uma lagrima escorre pelo meu rosto e ali permaneço em oração.
carla2  Eu como fisioterapeuta, aprendo a cada dia que somos uma porta de esperanças para muitos pacientes. Somos escolhidos para esta profissão maravilhosa e posso dizer que mais aprendemos do que ensinamos.
O que aprendi deste dia foi que a esperança se resume em alguém que possa te levar até um corredor onde o sol consiga alcançar a sua pele e te trazer a paz que ele oferece. Alguém que te traga mais próximo da vida.

Dra Carla Correia

Fisioterapeuta

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